Porque é que o tarot te atrai (e o que vais encontrar neste caminho)
Se estás a ler isto, provavelmente já tiveste uma tiragem que te deixou a pensar. Ou talvez tenhas visto alguém a fazer leituras e pensaste: “Também quero saber fazer isto.” É um impulso natural — o tarot tem esse efeito nas pessoas.
Mas aprender tarot não é decorar 78 significados como quem estuda para um exame. É um processo que mistura intuição, prática e, sim, alguma teoria. O que vou partilhar contigo aqui é exactamente o que eu gostava de ter sabido quando comecei: sem atalhos mágicos, sem promessas de que vais “dominar” o tarot em três dias.
Vamos por partes.
Escolher o teu primeiro baralho — e porque isto importa mais do que parece
Há uma tradição antiga que diz que o primeiro baralho deve ser oferecido. Bonito, mas pouco prático. Se esperares que alguém te dê um, podes ficar à espera anos. Compra o teu, sem culpa.
O baralho mais recomendado para iniciantes continua a ser o Rider-Waite-Smith (RWS). Porquê? Porque a maioria dos livros e cursos usa-o como referência. As ilustrações são descritivas — cada carta conta uma história visual que te ajuda a interpretar sem ter de recorrer constantemente ao livro.
Alternativas válidas:
- Tarot de Marselha — mais abstracto, raízes europeias profundas, mas os arcanos menores não têm cenas ilustradas (são como cartas de jogar), o que torna a aprendizagem inicial mais difícil
- Modern Witch Tarot — versão contemporânea do RWS, com diversidade e estética actual
- The Wild Unknown — visualmente deslumbrante, mas a simbologia é diferente do standard
O meu conselho: começa pelo RWS ou algo baseado nele. Depois, quando já tiveres alguma fluência, experimenta outros. Terás baralhos suficientes para encher uma prateleira — toda a gente acaba assim.
A estrutura do tarot: 78 cartas, dois grupos
Antes de tirares uma única carta, convém perceber como o baralho se organiza. São 78 cartas divididas em dois grandes grupos:
Arcanos Maiores (22 cartas)
Do Louco (0) ao Mundo (XXI). Representam temas de vida maiores — transformações profundas, lições kármicas, forças arquetípicas. Quando aparecem numa tiragem, o assunto é grande. Não estamos a falar do que jantar hoje.
Cada arcano maior tem uma energia específica. O Louco é o início sem medo, a Imperatriz é fertilidade e abundância, a Torre é ruptura súbita. Mas atenção: o significado muda conforme a posição na tiragem e as cartas à volta. Nada é fixo.
Arcanos Menores (56 cartas)
Divididos em quatro naipes, cada um com 14 cartas (Ás ao 10, mais Pajem, Cavaleiro, Rainha e Rei):
- Copas — emoções, relações, amor, intuição (elemento Água)
- Paus — acção, criatividade, energia, paixão (elemento Fogo)
- Espadas — mente, conflito, verdade, comunicação (elemento Ar)
- Ouros/Pentáculos — matéria, dinheiro, saúde, trabalho (elemento Terra)
Os arcanos menores lidam com o dia-a-dia. São o detalhe fino, o contexto prático das grandes questões que os maiores levantam.
Como começar a ler — sem decorar tudo primeiro
Aqui está o erro que quase toda a gente comete: tentar memorizar os 78 significados antes de pegar nas cartas. Não faças isto. É como tentar aprender a nadar lendo um livro sobre natação.
Em vez disso, faz o seguinte:
1. Uma carta por dia. De manhã, baralha e tira uma carta. Olha para a imagem durante um ou dois minutos. O que vês? Que sentimento te transmite? Que história a ilustração parece contar? Só depois consulta o significado. Anota tudo num caderno — a tua impressão e o significado “oficial”.
2. Fala com a carta. Parece estranho, mas funciona. Pergunta à carta: “Que mensagem tens para o meu dia?” Deixa a resposta surgir. Não forces. Com o tempo, a tua intuição vai ficando mais afinada.
3. Compara ao fim do dia. À noite, volta à carta da manhã. O que aconteceu durante o dia que se relacione com ela? Este exercício cria ligações que nenhum livro te dá.
Ao fim de 78 dias, passaste por todo o baralho. Mas a verdade é que não precisas de esperar tanto — depois de duas ou três semanas já vais notar que reconheces certas cartas sem esforço.
As tuas primeiras tiragens
Tiragem de 3 cartas
É a tiragem mais versátil e simples que existe. Três cartas, três posições. As combinações mais comuns:
- Passado — Presente — Futuro (a clássica)
- Situação — Obstáculo — Conselho
- Mente — Corpo — Espírito
- O que largar — O que manter — O que abraçar
Baralha enquanto pensas na tua questão. Corta o baralho com a mão esquerda (tradição, não obrigação). Coloca três cartas da esquerda para a direita.
Lê cada carta individualmente primeiro. Depois olha para as três juntas — há algum padrão? Naipes repetidos? Muitos arcanos maiores? Figuras da corte? Esses detalhes contam uma história maior.
Tiragem em Cruz — versão simplificada
Quando já te sentires confortável com três cartas, podes passar para cinco. Esta é uma versão simplificada da famosa Cruz Celta:
- Centro — a situação actual
- Cruzada por cima — o desafio ou obstáculo principal
- Abaixo — a raiz do assunto, o que está por baixo
- Esquerda — o passado recente
- Direita — o caminho provável, tendência
Não te preocupes com a Cruz Celta completa (10 cartas) por agora. É demasiado para quem está a começar e pode ser frustrante tentar interpretar tudo de uma vez.
Cartas invertidas: usar ou não?
Quando uma carta sai ao contrário — de cabeça para baixo — chama-se carta invertida ou reversa. E aqui as opiniões dividem-se.
Alguns leitores usam sempre invertidas, outros nunca. Não há regra universal. O meu conselho para quem começa: ignora as invertidas nos primeiros meses. Já tens 78 significados para absorver, não precisas de duplicar a complexidade.
Quando te sentires pronto, as invertidas acrescentam nuance. Uma carta invertida pode significar:
- A energia da carta está bloqueada ou atrasada
- O significado está presente, mas de forma reduzida
- Uma resistência interna em relação ao tema da carta
- O aspecto “sombra” daquela energia
Mas não é automático — o Louco invertido não significa necessariamente “medo de arriscar”. Depende sempre do contexto.
A intuição e os livros: encontrar o equilíbrio
Vais ouvir dois campos opostos: os que dizem “esquece os livros, segue a intuição” e os que insistem que precisas de estudar a simbologia toda antes de ler.
A resposta está no meio. O tarot tem séculos de tradição simbólica — as cores, os números, os elementos, as figuras, tudo tem significado intencional. Ignorar isto é como tentar tocar piano só de ouvido sem nunca aprender uma escala. Pode funcionar, mas limita-te.
Por outro lado, se só lês o que o livro diz, perdes aquela faísca pessoal que faz a diferença entre uma leitura mecânica e uma leitura que toca a pessoa.
Na prática: estuda a base, mas quando estiveres a fazer uma tiragem, permite-te desviar do manual. Se a carta dos Enamorados te faz pensar numa decisão de carreira em vez de romance, confia nisso.
Erros que vais cometer (e que toda a gente comete)
Sem drama, mas convém saberes:
Perguntar a mesma coisa várias vezes. Não gostaste da resposta? Baralhas outra vez na esperança de sair algo melhor. Não faças isto. A primeira tiragem é a que conta. Se rebaralhares, só vais criar confusão.
Ler para ti mesmo em estados emocionais intensos. Se estás ansioso, zangado ou desesperado por uma resposta, não é boa altura para tirar cartas. A tua interpretação vai ser enviesada. Espera, acalma-te, e depois pega no baralho.
Querer prever o futuro com exactidão. O tarot não é uma bola de cristal. Mostra tendências, energias em jogo, possibilidades. O futuro não está escrito — tu tens livre-arbítrio. Uma carta que indica dificuldade não significa que estejas condenado; significa que há um desafio para o qual te podes preparar.
Comparar-te com leitores experientes. Vês vídeos no YouTube de pessoas que fazem leituras fluídas e pensas “nunca vou chegar ali”. Vais. Demora tempo. Essas pessoas também tiveram uma fase de olhar para as cartas sem saber o que dizer.
Ter medo de certas cartas. A Morte, a Torre, o Diabo — as cartas “assustadoras” não são maldições. A Morte significa transformação e fim de ciclo. A Torre é mudança brusca mas necessária. O Diabo fala de padrões e vícios. Nenhuma carta do tarot quer magoar-te.
Cuidar do teu baralho
Isto não é obrigatório no sentido técnico, mas a maioria dos leitores desenvolve rituais com o seu baralho. Algumas ideias:
- Guarda-o numa bolsa de tecido ou caixa de madeira
- Passa-o por fumo de incenso ou sálvia quando sentires que precisa de “limpeza”
- Coloca um cristal de quartzo transparente em cima quando não estiver a ser usado
- Não deixes outros mexer no teu baralho sem consentimento (esta é uma preferência pessoal — há quem não se importe)
O importante é que o baralho se torne um objecto com o qual tens uma relação. Parece esotérico, mas é simples: quanto mais tempo passas com ele, mais natural fica a leitura.
Recursos para continuar a aprender
Não vou atirar uma lista interminável. Estes são os que realmente fazem diferença:
Livros:
- 78 Degrees of Wisdom de Rachel Pollack — considerado a bíblia do tarot moderno
- Tarot: Mirror of the Soul de Gerd Ziegler — abordagem mais terapêutica
- Kitchen Table Tarot de Melissa Cynova — linguagem descontraída, perfeito para iniciantes
Prática:
- Faz leituras para amigos e família (com a ressalva de que estás a aprender)
- Junta-te a comunidades online — há grupos no Facebook e Discord focados em tarot
- Mantém um diário de tarot — é provavelmente a ferramenta mais poderosa para evoluir
O que muda quando começas a ler tarot
Não quero soar místico, mas há uma mudança que acontece. Não é sobrenatural — é atenção. Quando praticas tarot regularmente, começas a prestar mais atenção aos padrões da tua vida. Notas ciclos, reconheces comportamentos, identificas energias antes de elas se manifestarem completamente.
O tarot é, no fundo, um espelho. Não te diz nada que não saibas já algures dentro de ti. Dá-te é a linguagem e a estrutura para aceder a esse conhecimento.
Começa devagar. Uma carta por dia. Uma tiragem simples por semana. E tem paciência contigo. O tarot recompensa quem se mantém presente e curioso — não quem despacha as 78 cartas numa noite.
Bom caminho. As cartas estão à tua espera.

Sofia Pereira é autora e editora do Caminho Numérico, onde publica guias de numerologia, tarot, astrologia, esoterismo e autoconhecimento. O seu trabalho organiza interpretações simbólicas e práticas espirituais em conteúdos claros para leitores que procuram reflexão, significado e orientação pessoal.
